24 de nov de 2014

Educação social

Bom dia com: enquanto você troca ofensas com seu opositor, tem criança te observando e não é isso que forma um cidadão consciente no ato de votar.

Sou nordestina. Filha de educadores, neta de militar. Cresci em família "PTista" e ouvindo os dois lados sobre a ditadura. No final do ensino médio, meu programa favorito era Anos Rebeldes, participei do movimento "cara pintada" e embora minha família
tivesse boas condições financeiras, estudei todo o segundo grau em escola pública. Meu voto sempre foi para o PT, indiscutivelmente e, por muito tempo, fui até agressiva. Lamentei quando Tancredo Neves morreu (a comoção social pela perda, me invadiu em razão da sensibilidade exarcebada), quando Lula perdeu para o Collor (e eu nem votava ainda) e Cristóvão Buarque perdeu para o Roriz. 

 Nas eleições de 2014 me senti profundamente desanimada. Acompanhei diariamente postagens de amigos que considero íntegros e esclarecidos e com opções diferentes para presidência, com o intuito de fazer uma escolha que me deixasse feliz pelo cumprimento do meu papel como cidadã nada aconteceu neste peito, nem mesmo a convicção que por anos permaneceu intacta.

 Eu, apaixonada pela vida que sou, esmoreci, morri, percebi-me sem esperanças. Fora de mim, uma criança linda de apenas 10 anos de idade, vibrava com as eleições. Eu me enxerguei nela na época do movimento "DIRETAS JÁ". Meus olhos brilharam, mas o peito continuou mudo. 

Por vários dias vinha até mim mostrar reportagens, fazer perguntas e eu, quase morta para o assunto, tentava extrair forças para não lhe apagar a vontade de exercer sua cidadania mesmo que ainda limitada.
"Em quem você irá votar mamãe?"
"Ainda não decidi minha filha!"

 Sua empolgação aumentava quando eu lhe respondia isso. Era a abertura que percebia para me convencer sobre o candidato escolhido por seu pai. E eu apreciei ouvir cada um dos seus puros argumentos. Vez ou outra, ela fazia algum comentário menos nobre sobre o candidato não escolhido e eu sempre ponderava sobre a importância do respeito pelo ser humano, independente de suas escolhas ou atos. 

Ontem, tomamos banho, jantamos e nos deitamos na cama para acompanhar o andamento das apurações. Sua reação ao ouvir o resultado era como a de uma pessoa que assiste uma partida de futebol (e vou me reservar ao direito de não dizer se triste ou feliz para não delatar sua escolha). E mais uma vez, tive que chamá-la à lucidez. "Quando se vence não se humilha quem perdeu. Quando se perde, não se desmerece o menos favorecido. Sua tarefa de amanhã? Pesquisar sobre o significado das palavras democracia e empatia e, perceber suas manifestações nos ambientes os quais você está inserida."

Penso que seja este, um dos melhores caminhos para a construção de um país digno e justo. Olharmos para nossas crianças e cumprirmos com o nosso papel na formação emocional dos nossos pequeninos. "A competição é tão fundamental quanto a capacidade em lidar com a frustração. A felicidade pela vitória é tão valiosa quanto o respeito pelo ser humano."
 
Fui dormir muito mexida... sem convicção, sem angustia, sem alegria... indiferente. Isso sim é triste! 

Meu desejo para os próximos quatro anos?

Que eu tenha discernimento na condução dessas almas que o universo a mim confiou, despertando em suas consciências e corações o respeito pela humanidade. É o que percebo faltar em excesso (soou interessante isso) em boa parte do nosso planeta azulzinho e o aspecto que mais me preocupa ao lidar com a formação dos meus pequeninos... essa observância diária, diz mais sobre minha cidadania do que apertar os botões de uma urna a cada quatro anos.

Obs.: esse clima competitivo mexe com qualquer pessoa, independente da idade. Penso que são momentos ricos, onde mostramos, sem perceber, nossas fragilidades enquanto seres humanos (egoístas, radicais, intolerantes e audaciosos). Nosso papel é a manutenção do equilíbrio e neutralidade ao lidarmos com as emoções exacerbadas dos nossos filhos. Essas reações em parte mostram onde precisam de mais atenção, em outra parte é o resultado dessa energia poderosa social que invade nossos lares pelas redes e televisão.

Ana Virgínia Almeida Queiroz
Drágeas Psicológicas no facebook: https://www.facebook.com/drageaspsicologicas

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