3 de abr de 2012

Um conto para a fobia específica

Quando o ano letivo acabava, uma gostosa ansiedade permeava o ambiente com seu bafo adocicado de férias. Poderia viver por ao menos dois meses as mais fantasiosas experiências nutridas pela ingenuidade infantil que permeava suas vivências e sonhos. Estaria ao lado dos avôs, dos tios e dos primos e tudo aconteceria nesse memorável contexto, revivido a cada ano, com novas percepções. O mar e tudo o que ele envolvia, casado com a sensação de um delicioso abraço solar eram tão aconchegantes quanto o aperto da avó contra o peito. Seios grandes e endurecidos quase a sufocavam de tanto amor.


De imediato, poderia correr até a cozinha e teria o vidro de guloseimas regionais a sua espera e não muito tardaria para refestelar-se no arroz de leite preparado carinhosamente pela mãe de sua mãe. À época, o leite condensado era artigo de luxo e, portanto, guardado a chaves. Mas quando ela estava presente, isso era irrelevante. O ingrediente era usado sem dó na confecção da sobremesa e ainda sobrava na geladeira para que pudesse, diariamente, sugar seu conteúdo pelos dois furinhos feitos na lata. Sentia-se plenamente amada. Suas necessidades de atenção, colo e prestígio eram atendidas sem grandes esforços pela vovó, favorecendo um aumento substancioso da vontade de estar sempre ali, ao seu lado, sorvendo seu cheiro.

Emoções que se repetiam nas semanas festivas típicas dos períodos pós-letivos, ritualisticamente. Tudo em perfeita harmonia, num cenário de infância feliz, não fosse um elemento surpresa na abertura da lata para a raspagem das derradeiras sobras, pois a quantidade do delicioso e cremoso líquido se tornara inacessível pelas pequenas brechas. Uma barata bem adulta, falecidamente feliz e obesa, tinha feito daquela lata seu jazigo perpétuo. Para o azar da única netinha, havia testemunhas, primos homens que não gozavam dos mesmos privilégios. E toda a indignação por tratamento diferenciado em verões a perder de vista, podia se manifestar com prática familiar padronizada. Gargalhadas e piadas regadas a deboche e despeito.

Olhou para a avó, tentando reconhecer sua própria importância, mas ela também gargalhava. Sentiu-se sozinha como em muitos dias do ano, quando sua mãe, precisando trabalhar, a deixava sob os cuidados de outras pessoas. Desde então, conscientizou-se do pavor de baratas. Mas sua história difícil com o referido bichinho não se iniciara ali.

A fobia específica se enquadra entre os transtornos de ansiedade e é um medo que se liga a um estímulo sem nenhuma razão aparente. Muito comum, sendo as mulheres levemente mais propensas ao diagnóstico, possui uma gama infindável de elementos desencadeadores do medo, dos quais podemos destacar ambientes naturais (tempestade, altura, entre outros), situações (pontes, elevadores, direção), animais, incluindo insetos, sangue (ferimento, injeção, cirurgia), etc.

Uma pessoa que sofre o transtorno de fobia específica vivencia o medo de forma desproporcional, provocando incompreensão naqueles que estão a sua volta. Tal sentimento pode modificar a vida do indivíduo, expondo-o ao ridículo, comprometendo sua autoestima, sua profissão e toda sua dinâmica vital. Segundo Ana Beatriz Barbosa Silva, a exposição ao objeto pode gerar uma ansiedade de proporções semelhantes às de um ataque do pânico (mãos frias, tremores, taquicardia, falta de ar, transpiração, entre outros). O diagnóstico é feito observando os comportamentos de esquiva, fuga, medo ou antecipação ansiosa do encontro com o objeto fóbico, com interferências significativas no cotidiano do sujeito, em prejuízo de seu desempenho social e/ou individual, e consequente sofrimento em demasia.

Na história de vida da personagem, o inseto sempre aparecia em contexto familiar associando-se a sentimentos de solidão, inadequação e vergonha ou abandono.  Já na fase adulta e em busca de respostas para o medo, descobriu por intermédio do relato de uma tia materna, que em seu primeiro ano de vida, trabalhava em sua residência uma funcionária que tinha pavor do bicho, fazendo escândalo sempre que um aparecia. Provavelmente, a primeira etapa do seu medo se desenvolveu por intermédio de um processo de aprendizagem e, posteriormente, progrediu em razão da associação do objeto (barata) com a frustração de necessidades afetivas (presença física da mãe, sentimento de prestígio, entre outros).

Mira y López elucida que a carência pode ser um dos motivos para os medos, onde “o Ser necessita de algo vital, busca-o e não o encontra, sente a frustração de seus esforços e esgota sua energia, multiplicando-os. Surge então a suspeita – e logo a crença – antecipadora do fracasso ou renúncia na consecução do desejado e, se isto se torna básico para a prossecução da vida pessoal, o Ser não só sentirá desgosto, tristeza ou decepção, como sofrerá a aguilhoada direta do Medo.”

São atitudes fundamentais para a melhora do quadro: o enfrentamento gradual, objetivando uma dessensibilização do objeto provocador de tal ansiedade e a reavaliação de conceitos acerca do elemento temido, bem como a descoberta de questões emocionais que possam estar atreladas ao emparelhamento do medo ao estímulo do transtorno. Tais medidas podem não extinguir as sensações de forma imediata, mas favorecem um maior controle das sensações e uma ampliação da autoconfiança. “Para se desemaranharem esses ‘novelos psíquicos’ é preciso encontrar-se a ponta inicial que, às vezes, se acha muito distante na linha temporal retrospectiva”, conclui o mesmo autor.


Ana Virgínia Almeida Queiroz – CRP: 01-7250


Suporte Bibliográfico:
- DSM-IV-TR. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais / 2002
- Psiquiatria básica – organizadores: Mario R. Louzã Neto, Thelma da Motta, Yuan-Pang Wang, Hélio Elkis / 1995;
- Livre de ansiedade – Robert L. Leahy / 2011;
- Mentes ansiosas – Ana Beatriz Barbosa Silva / 2011;
- Quatro Gigantes da Alma – Mira y López / 2010;
- Duas Histórias Clínicas (O “Pequeno Hans” e o“Homem dos Ratos” – 1909) – Sigmund Freud.

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