13 de abr de 2012

O muro da Depressão

Não há dúvidas sobre a importância e influência dos pais na primeira infância de um indivíduo, no que se refere, principalmente, à formação de seu caráter, bem como na organização de uma estrutura psicoafetiva, definidora da maneira como este perceberá e organizará ações e reações na sociedade.
Estádio do Morumbi – São Paulo, 1º de abril de 2012
Roger Waters, 69 anos, nos presenteia com o clássico The Wall, uma temática muito mais do que atual. Setenta mil corações respondem aos apelos das melodias e dos sons reproduzindo tormentosos momentos bélicos. Bombas, tiros de metralhadoras e até mesmo um avião em queda explodindo no palco promoviam sensações de opressão e ansiedade na plateia. Tudo perfeitamente arquitetado, objetivando uma tomada de consciência pelo público.
A obra em questão retrata a história de vida do artista. Filho da Segunda Guerra Mundial, órfão de pai, criado por uma mãe super protetora, fruto de um sistema educacional precário e repressor, geram um perfil humano depressivo, resguardando-se entre os tijolos que compunham a defesa construída ao logo de sua existência, atrás da qual sentimentos de solidão, medo e vazio são cuidadosamente interpretados por Waters e pelas cirúrgicas projeções no muro que se erguia ao longo do espetáculo.
Inevitável remeter à atualidade. Educação e Psicologia avançaram e a consciência sobre os danos da repressão na formação de nossas crianças já é, para muitas pessoas, ponto indiscutível. Abstraindo os casos de maus tratos e outras situações extremas, percebem-se pais preocupados em favorecer uma vida farta de “alegrias” à prole. No entanto, o mais importante, ainda está para ser despertado; a satisfação em simplesmente SER, observando-se as reais necessidades nas crianças, especialmente as afetivas.
Essa omissão de observância não começou agora e é alterada em sua forma de apresentação a cada nova geração, de modo a garantir o prolongamento e a sedimentação da alienação existencial nas famílias e, consequentemente, na sociedade. Boa parte das pessoas está doente, carente e ausente de si mesma. Não foram treinadas quanto à prática da auto-observação, por intermédio do reconhecimento dos próprios sentimentos, tampouco no que tange à capacidade de desenvolver a autonomia emocional, buscando sempre fora a satisfação de seus anseios. Surgem as compulsões de toda natureza, na tentativa de preencher lacunas internas e encobrir relações fundamentadas em falsas expectativas, na frenética negação da própria dor e na delegação a outrem do poder de proporcionar felicidade plena.
A transferência da responsabilidade para fora de si é constantemente ilustrada nos casamentos, nos relacionamentos entre pais e filhos e por que não dizer na escolha dos nossos governantes. Compomos uma sociedade com um perfil depressivo, onde a maioria alimenta o sonho de dias melhores, sem promover grandes esforços na parte que lhes compete, postura que provoca adiante um padrão de vitimização.
Aquietam-se, acomodam-se, calam e sonham, vivendo nos quatro cantos do país de esperanças em troca de migalhas, do suor das frustrações e dos calos nos dedos provocados pela mudança de canais na televisão. É a busca incessante pelo alto padrão de vida, pela sobrevivência e aceitação na sociedade. Como, então, exigir do cidadão médio mais critério na escolha de seus representantes? As justificativas são inúmeras, envolvendo a deficiência da Educação, bem como a má distribuição de renda e consequentemente o enriquecimento ilícito dos governantes. Mas é a população desprovida de discernimento, critério e senso crítico quem escolhe os representantes. Essa, regada a inúmeras compulsões, a programas televisivos abusivos e reforçadores da mediocridade.

E, assim, a perversidade humana se elege, compondo um enlace perfeito entre padrões depressivos e psicopatas. Um quadro de textura profunda, de raízes íntimas que se refletem no social. O sistema educacional, tão somente, não mudará essa realidade. A família precisa rever valores e reinvertê-los, promover nos filhos habilidades no tocante à autodefesa emocional, conscientizá-los sobre o valor do trabalho, as desvantagens em se “tirar vantagem” e a rejeição intransigente de todo e qualquer tipo de abuso.
Necessita-se de crianças e jovens mais colaborativos, menos isolados nos muros cibernéticos da tecnologia, que interajam com a família, com os grupos, desenvolvendo, assim, habilidades no lidar com o outro. Futuros adultos que se deleitem com as obras literárias, instigadoras da imaginação e da sensibilidade. Que brinquem, descobrindo os limites do próprio corpo e do espaço dos que compartilham dos mesmos momentos lúdicos.



Precisa-se para tanto de pais, educadores e cuidadores mais capacitados em lidar com os próprios recalques, garantidores da fluidez da autenticidade infantil, conscientes da vaidade e da ameaça que saltam de seus inconscientes em vista das próprias necessidades afetivas mobilizadas a partir do convívio com uma criança. Adultos mais tolerantes aos apelos da culpa que os torna reféns, cedendo às invasões publicitárias na busca da compensação pelas suas limitações humanas.
The Wall não é uma ficção e está perfeitamente contextualizada. Não somos filhos da Segunda Guerra Mundial, mas dos apelos consumistas, incentivadores do carrasco verbo TER para então tentarmos SER. Derrubemos o muro! Mas o façamos primeiramente dentro de nós, para que, mais inteiros, rompamos os grilhões que nos escravizam à própria falta de atitude e, feitos homens e mulheres livres, sejamos capazes de formar cidadãos mais conscientes emocional e politicamente, cuja postura diante da vida se revele suficientemente poderosa para operar uma transformação consistente na direção do fortalecimento de uma consciência coletiva verdadeiramente justa e humanizada.
Ana Virgínia Almeida Queiroz - CRP: 01-7250

Referências:
Filme: The Wall - Pink Floyd
Documentário: Criança, a alma do negócio http://www.youtube.com/watch?v=rNlIgEm_5U8
Todas as obras de Alice Miller

The Wall - Nobody Home

Tradução:


Eu tenho um pequeno livro preto com meus poemas
Tenho uma bolsa com uma escova de dente e um pente dentro
Quando eu sou um bom cachorro as vezes eles me jogam um osso
Tenho elásticos mantendo meus sapatos amarrados
Tenho aquelas inchadas mãos azuis
Tenho treze canais de merda na TV para escolher
Eu tenho luz elétrica
E eu tenho intuição
Eu tenho incríveis poderes de observação
E isto é o que eu sei
Quando eu tentar conversar
No telefone com você
Não haverá ninguém em casa
Eu tenho o obrigatório permanente* de Hendrix
E eu tenho as inevitáveis queimaduras de agulha
Bem à frente da minha camisa de cetim favorita
Eu tenho manchas de nicotina nos meus dedos
Eu tenho uma colher prateada numa corrente
Eu tenho um grande piano para escorar meus restos mortais
Eu tenho brilhantes olhos selvagens
Eu tenho um forte desejo de voar
Mas eu não tenho para onde ir
Ooooh Baby quando eu pegar o telefone
Ainda assim não haverá ninguém em casa
Eu tenho um par de botas Gohills
E eu tenho raízes enfraquecidas.

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