1 de mar de 2012

O que você responderia?

Quarto mês de gestação, recostada na cama após o almoço, a afilhada de 5 anos que foi passar o final de semana na casa da Dinda, abre a porta repentinamente, aproxima-se da cama, faz um carinho na barriga da madrinha  e “solta a bomba”:

-Criança, super empolgada: Dinda, sabe o que eu descobri?

 
-Dinda, mais empolgada ainda: Não minha linda. O que foi?

-Criança: Descobri que tenho uma bolinha dentro da minha “perereca”.

-Dinda, se ajeitando na cama e quase colocando o filho pela boca: Hã?

-Criança: Dindaaaaa, uma bolinha na minha “perereca”, quer ver?

-Dinda, já recuperada do susto: Não precisa, eu sei que tem...

-Criança: É gostoso mexer nela! Faz cosquinha... você também tem?

-Dinda: Sim. Tenho. Todas as mulheres tem essa bolinha, chama-se clitóris.

-Criança: Deixa eu mexer no seu “pilitolis” para você ver como é bom!

-Dinda (agora o menino nasce!): Não é “pilitolis”, é clitóris. E olha só, não é legal as pessoas mexerem no clitóris de outras pessoas, entendeu? Cada um mexe no seu. Se alguém quiser colocar a mão, beijar ou ver o seu clitóris, você não deixa. Só sua mamãe, seu papai ou seu médico que podem ver caso você esteja sentindo alguma coceira, dor... mas mexer para fazer cosquinha NINGUÉM pode. Só você!

-Criança: Mamãe e papai não podem fazer cosquinha?


-Dinda: Cosquinha, só você! E também não é legal fazer isso na frente de outras pessoas, ou toda hora. Quando for fazer é bom que lave as mãos para fazer e depois que fizer também, combinado?

-Criança: Tá! Mas eu posso te contar quando “eu fazer”?

-Dinda: Não precisa, basta lembrar o que eu estou te falando, ok? Mas se quiser contar vou te ouvir. Você já conversou isso com sua mãe?

-Criança: Ainda não... acabei de descobrir...

E saiu correndo porta afora com a mesma intensidade e naturalidade de quando entrou...
-Dinda, quase falando sozinha: É legal que conte para ela... será que me ouviu????????????


*A leitora que nos encaminhou a crônica pediu para manter o anonimato.


A reação mais comum em situações semelhantes a essa é a repressão imediata. O “tira a mão daí! Não faça isso! Isso é feio! Você vai se machucar!”, são frases comumente utilizadas. Nossos recalques sexuais, frutos da nossa educação, são acionados instantaneamente e reproduzimos, senão igual, quase que da mesma maneira como os adultos reagiram às nossas descobertas.

Instruir uma criança quanto à melhor forma de se tocar não representa necessariamente um incentivo à masturbação, mesmo porque, qual a garantia de que um “grito proibidor” fará com que a criança desista? A probabilidade dela não parar é grande, mas agora se sentindo culpada por estar cometendo um erro, desobedecendo uma ordem.

Se, por outro lado, isso se tornar muito frequente, o adulto poderá tentar “desviar” a atenção da criança para outras atividades. Caso isso não resolva, buscar entender outras razões (como a ansiedade, por exemplo) que a leva à prática excessiva pode favorecer intervenções mais assertivas. Se nada disso resolver, não hesite, procure suporte de um psicólogo.

Na medida do possível, observar que sentimentos são despertados em cenários como o descrito também é importante, uma vez que normalmente definem a reação dos adultos. Se conseguir segurar o impulso repressor, ótimo! Na dúvida de como agir, não aja, espere, converse com alguém habilitado e oportunamente atue.

A orientação sexual nas crianças, além de favorecer um desenvolvimento psíquico, afetivo e corporal mais sadio, pode representar uma aliada na prevenção de abusos sexuais contra elas. Fortalece o vínculo, a confiança e é muito importante que ocorra de forma natural e descontraída. Pudor e malícia pertencem aos adultos, criança exala espontaneidade. Reaprendamos com elas...

Parabéns Dinda e obrigada pela rica contribuição!


Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250








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