24 de fev de 2012

Modelando a ansiedade


- Retração na gengiva? Não era gengivite a razão para tanta sensibilidade?
- Sua gengiva não sangra, não está inflamada. A sensibilidade é em função da retração. Vou te pedir uns exames para descobrirmos o que pode ter provocado e então iniciarmos o tratamento para evitar a evolução do quadro patológico.
Dentro da minha cabeça uma voz gritava: “PATOLÓGICO?”

Assim me explicava pacientemente meu dentista especialista em ATM enquanto eu, imediatamente, me transportava para o futuro, observando meu sorriso em uma fotografia. Sorriso grande, sem gengiva e com raízes dentárias à mostra. É óbvio que não me agradei do quadro.

- No que consiste o tratamento?
- Depende do estudo das suas mandíbulas e da tomografia. Mas no seu caso o que posso adiantar é que você terá que usar ou um aparelho para dormir ou um aparelho fixo.
Pensei: Que ótimo! Todos os meus sonhos infantis estão se realizando! Ano passado quebrei o dedo do pé e tive a opção de usar gesso, agora vou colocar aparelho.
- Procure fazer os exames nessa clínica. Eles entregarão o resultado aqui mesmo e quando eu os receber entro em contato com você.

Minha coragem em prosseguir com o tratamento era tão grande que primeiro esperei chegar de viagem para marcar. Quando marquei, o fiz na clínica errada, mas no final das contas não tive como fugir. Fui.

Acordei bem cedo, arrumei as crianças para a escola, tomei meu café, mas achei melhor não comer muito, afinal eu não sabia o que iam colocar na minha boca. Saí antes das 8 horas da matina, para conseguir ser uma das primeiras, já que o atendimento era por ordem de chegada. Chegando às 7h55, havia uma mulher na minha frente. Pensei: outra desesperada para se ver livre! Deixa disso Ana! Vai ver ela tem outros compromissos a cumprir. Nem todo mundo é “frouxa” que nem você!

Passadas todas as etapas de entrega de guia, pagamento, foto para identificação (acho que isso deveria ser proibido – ficamos estranhamente irreconhecíveis nessas fotos), assinatura...  sou chamada a adentrar uma micro sala, com uma bancada e pia e uma poltrona de dentista.


Uma técnica nada simpática: após me dar bom dia, vira-se de costas e começa a esquentar uma placa de não sei que material.

Na minha cabeça, as curiosidades infantis: Para quê isso? Será que vai queimar minha boca? Controle-se Ana! Qualquer coisa você levanta a mão!


À minha frente um quadro que não dava para entender nada, à minha esquerda uma parede e à minha direita um espelho. Melhor olhar para ele, a imagem é bem melhor assim... huuuuuuuuum... estou precisando retocar minhas raízes com urgência. Assim que sair daqui ligar para o Júnior...

- Abra a boca e só morda a placa quando eu der o comando.
Só me restava balançar a cabeça afirmativamente, já que à medida que ela falava já ia executando o ritual.
- Morda! Isso! Abra a boca!
E eu comigo: senta, deita, rola, morto!
- Abra a boca novamente. Vamos repetir.
Até que estava divertido. Se eu soubesse que era assim tão simples não tinha esperado tanto tempo para fazer o exame.
Ela guardou os dois moldes em um saco plástico e tornou a se virar de costas. Dessa vez ela demorou mais e eu até que achei bom, assim eu poderia continuar meu monólogo com o espelho.

- Abra a boca novamente e baixe a cabeça.
Feito.
De repente, a técnica abre um quilômetro da minha boca e enfia um não sei o quê com uma “ruma” de pasta que de imediato embrulhou meu estômago me remetendo à imagem do Gato de Botas quando coloca para fora uma bola de pelos no desenho do Shrek. Ainda bem que eu havia comido pouco e consegui segurar o conteúdo estomacal...
- Feche a boca! Não tente engolir a saliva, não movimente a língua.
Nisso uma de suas mãos segurava o molde e a outra segurava minha cabeça, empurrando-a para baixo.
- Isso levará alguns segundos – mas juro que demorou uma eternidade – pronto, vou tirar, não se mexa!
O gosto era horrível, além da sensação de que todos os meus dentes estavam indo embora junto com aquela massa corrida.
- Agora nós vamos fazer o molde da arcada superior. E de novo a sessão tortura, mais parecia uma luta de vale tudo onde meu cabelo foi o maior prejudicado, pois já estava cheirando a axila. “Putzgrila”, lavei ontem!

Mas já estava até gostando do procedimento. Encontrei um jeito fácil de passar pelo processo. Bastava inspirar pelo nariz e soltar o ar pela boca e todo o tormento se esvaía. Consegui até repetir o molde da arcada superior que a adorável técnica conseguiu errar.
- Vou ter que repetir esse. Você não baixou a cabeça o suficiente!
Pensei de novo: Ela quase quebra meu pescoço, deixa o maior “futum” no meu cabelo e a culpa é minha? Relaxa, Ana! Você não está aqui a passeio, mas tente sublimar. Pense no mar e respire a brisa litorânea!
Depois de três vezes comendo aquela massinha, finalmente concluímos o procedimento, ao que ela me diz:
- Pode levantar e lavar a boca!

Quando me olhei no espelho novamente, parecia que eu havia comido um monte de broas brancas nordestinas, aquelas, feitas com polvilho. Era farelo até a sobrancelha e não podia ser diferente, tamanho foi o embate de corpos, onde quem ficara em vantagem era obviamente quem estava de pé, babando sobre minha cabeça uma saliva dominadora de quem finalmente subjuga a  presa (a presa era eu). Só me restava me resignar e aceitar que todos vivem dias de caça ou de caçador. Lembrei-me do paradigma dominador do ser humano, do superior e do inferior... um dia falo sobre isso.

- Não foi fácil? O segredo é inspirar pelo nariz e expirar pela boca. Além de ajudar a não vomitar, auxilia a massa a secar mais rápido. Vamos para a tomografia.
- Obrigada por avisar! Vou me lembrar disso na próxima vez. Respondi feliz pela constatação de tamanha autonomia.

No setor da tomografia, outra técnica, mais “simpática” ainda me explica os procedimentos. Essa etapa foi mais fácil, não fosse ter que repetir o exame três vezes e em alguns momentos me sentir como Doctor Lecter com sua focinheira no filme O Silêncio dos Inocentes. Na recepção, enquanto eu esperava o aval dela para ir embora, o filme O Circo de Charlie Chaplin me distraía; ele, vestido de mágico, teria que subir em uma corda bamba. Uma bela bailarina preocupada com sua segurança lhe indaga:
“- Você vai morrer?”
  Ao que ele responde cheio de “marra”:
“- Não. Minha vida é encantada!”

Prontamente fiz a conexão. Eu também sobrevivi à massa corrida em minha boca, tentando me invadir goela abaixo, mas principalmente à falta de sensibilidade das profissionais que me tratavam como qualquer coisa, menos como um ser humano...
E antes que um sentimento de vítima tentasse tomar conta do meu SER, pensei na fotografia sem gengiva e... definitivamente, nada poderia ser pior do que isso naquele momento!
- Dona Ana Virgínia, a senhora está liberada.
- Obrigada e tenha um bom dia!
E abri aquele sorriso, cheio de dentes e gengiva!

Segui para o estacionamento, achando graça da situação e  pensando em redigir essa crônica, sem ao menos imaginar que lá conheceria minha mais nova “amiga”. Não sabe quem é? Aquela da crônica “É para sorrir ou para brigar?”

Acho que o dia promete, mas nada há de estragar minha alegria de viver! Afinal... ela “é encantada”!


Ana Virgínia Almeida Queiroz

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