28 de fev de 2012

Emoção, obediência, doença e cura


Alice Miller em sua obra A Revolta do Corpo, nos leva a refletir sobre a forma como emoções oriundas de experiências dolorosas na infância, reprimidas em favor de normas culturais e religiosas, se tornam nocivas, se manifestando em forma de doenças de ordem física no futuro. 

Não raro, pacientes que buscam a psicoterapia e que apresentam alguma queixa de nível orgânico não percebem as emoções atreladas ao sofrimento manifestado. Muitos foram maltratados, abandonados física ou emocionalmente na infância, sem registro no corpo, mas fortemente presente no psiquismo. A referência se faz a despeito da não observância das necessidades afetivas de uma criança, como o respeito por ela enquanto ser humano. Zombar ou desqualificá-la, não confirmá-la ou não acolhê-la em suas dúvidas e medos também geram sentimentos de solidão e a desconfiança em si mesma. Mas em razão da crença a respeito de um amor incondicional dos pais e da obrigação quanto à gratidão, são treinadas a não entrar em contato com a dor originada nesse tipo de vivência, negando-a como forma de não se sentirem culpadas ou serem punidas. 

Crescem se convencendo de que a idoneidade familiar é mais legítima que as próprias percepções e passam toda uma vida lutando pelo reconhecimento e amor da família. Nosso organismo denuncia aquilo que nossa razão não quer ou não pode aceitar por medo dos julgamentos e represálias, resultantes de um sistema de crenças, baseado em preceitos cujos sentimentos negativos devem ser combatidos em qualquer situação, principalmente no que ser refere ao contexto familiar. Em resumo, seria mais ou menos assim: no íntimo o indivíduo sabe que os sentimentos negativos são legítimos e justos, mas precisa negar isso.


Essa luta entre a verdade e a proibição e a insegurança quanto à própria percepção obviamente precisará de uma válvula de escape – normalmente o corpo é quem paga! Mas antes mesmo de adoecer, a fuga e a negação da dor podem se manifestar por intermédio de satisfações efêmeras. O consumismo aumenta significativamente ano após ano. O álcool, as drogas, as compulsões de toda natureza podem representar o reflexo da desconexão com o que provocou e ainda provoca sofrimento no indivíduo. 

Quando o corpo dá sinais de que algo não está bem, a alternativa mais comum para a resolução da dor é a médica. O tratamento medicamentoso é essencial na cura, mas pode não ser suficiente. Um organismo cuidado apenas em seu aspecto físico poderá melhorar, mas não se sustentará por muito tempo, a mesma queixa ressurgirá ou outras novas. A estrutura física é o nosso mapa, depósito das nossas experiências positivas e negativas, portanto condutor na busca pelas respostas do que de fato desequilibra a saúde orgânica.


Faz-se urgente que admitamos nosso lado mais sombrio, depósito das experiências e dos sentimentos mais reprimidos, proibidos. Só o reconhecimento e a aceitação de nossas sombras podem nos libertar, o que não significa nos tornarmos pessoas piores e cruéis. Tais ações são apenas os primeiros passos. Os seguintes dependem das necessidades de crescimento ou aprisionamento de cada um. Pode-se optar por manifestá-los descompensadamente, reprimi-los ou elaborá-los em busca da saúde integral.


As escolhas são livres, mas os resultados são necessariamente delas escravos! 


Suporte bibliográfico: A revolta do corpo – Alice Miller / 2011
Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250


Um corpo inerte guarda tanta dor...

separado da mente,
entende, mas não sente,
sente, mas não resolve,
chora sem lágrimas,
vibra porque tem vida, mas não tem consiciência disso,
quer falar, mas não tem voz,
sobrevive,
camufla,
se engana.
Consciência liberta, o corpo é o alerta!
Minha estrutura física é meu mapa, apenas eu sei o caminho que me levará ao verdadeiro significado de estar viva.

Ana Virgínia

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