O muro da Depressão.

Não há dúvidas sobre a importância e influência dos pais na primeira infância de um indivíduo.

Mergulhando no inconsciente.

Muitas pessoas têm receio de fazer psicoterapia.

Um olhar para a depressão

A depressão é diferente do estado deprimido, o qual pode ser resultado de fatos corriqueiros

Tirando a poeira debaixo do tapete

Você sabe que algo não vai bem, mas não sabe como criar espaço para dizê-lo

As relações não curam todas as carências

“Nós escrevemos scripts para outras pessoas encenarem, mas esquecemos de lhes comunicar isso”.

Transtorno do Pânico

A síndrome do pânico enquadra-se no conjunto de transtornos de ansiedade

28 de fev de 2012

Emoção, obediência, doença e cura


Alice Miller em sua obra A Revolta do Corpo, nos leva a refletir sobre a forma como emoções oriundas de experiências dolorosas na infância, reprimidas em favor de normas culturais e religiosas, se tornam nocivas, se manifestando em forma de doenças de ordem física no futuro. 

Não raro, pacientes que buscam a psicoterapia e que apresentam alguma queixa de nível orgânico não percebem as emoções atreladas ao sofrimento manifestado. Muitos foram maltratados, abandonados física ou emocionalmente na infância, sem registro no corpo, mas fortemente presente no psiquismo. A referência se faz a despeito da não observância das necessidades afetivas de uma criança, como o respeito por ela enquanto ser humano. Zombar ou desqualificá-la, não confirmá-la ou não acolhê-la em suas dúvidas e medos também geram sentimentos de solidão e a desconfiança em si mesma. Mas em razão da crença a respeito de um amor incondicional dos pais e da obrigação quanto à gratidão, são treinadas a não entrar em contato com a dor originada nesse tipo de vivência, negando-a como forma de não se sentirem culpadas ou serem punidas. 

Crescem se convencendo de que a idoneidade familiar é mais legítima que as próprias percepções e passam toda uma vida lutando pelo reconhecimento e amor da família. Nosso organismo denuncia aquilo que nossa razão não quer ou não pode aceitar por medo dos julgamentos e represálias, resultantes de um sistema de crenças, baseado em preceitos cujos sentimentos negativos devem ser combatidos em qualquer situação, principalmente no que ser refere ao contexto familiar. Em resumo, seria mais ou menos assim: no íntimo o indivíduo sabe que os sentimentos negativos são legítimos e justos, mas precisa negar isso.


Essa luta entre a verdade e a proibição e a insegurança quanto à própria percepção obviamente precisará de uma válvula de escape – normalmente o corpo é quem paga! Mas antes mesmo de adoecer, a fuga e a negação da dor podem se manifestar por intermédio de satisfações efêmeras. O consumismo aumenta significativamente ano após ano. O álcool, as drogas, as compulsões de toda natureza podem representar o reflexo da desconexão com o que provocou e ainda provoca sofrimento no indivíduo. 

Quando o corpo dá sinais de que algo não está bem, a alternativa mais comum para a resolução da dor é a médica. O tratamento medicamentoso é essencial na cura, mas pode não ser suficiente. Um organismo cuidado apenas em seu aspecto físico poderá melhorar, mas não se sustentará por muito tempo, a mesma queixa ressurgirá ou outras novas. A estrutura física é o nosso mapa, depósito das nossas experiências positivas e negativas, portanto condutor na busca pelas respostas do que de fato desequilibra a saúde orgânica.


Faz-se urgente que admitamos nosso lado mais sombrio, depósito das experiências e dos sentimentos mais reprimidos, proibidos. Só o reconhecimento e a aceitação de nossas sombras podem nos libertar, o que não significa nos tornarmos pessoas piores e cruéis. Tais ações são apenas os primeiros passos. Os seguintes dependem das necessidades de crescimento ou aprisionamento de cada um. Pode-se optar por manifestá-los descompensadamente, reprimi-los ou elaborá-los em busca da saúde integral.


As escolhas são livres, mas os resultados são necessariamente delas escravos! 


Suporte bibliográfico: A revolta do corpo – Alice Miller / 2011
Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250


Um corpo inerte guarda tanta dor...

separado da mente,
entende, mas não sente,
sente, mas não resolve,
chora sem lágrimas,
vibra porque tem vida, mas não tem consiciência disso,
quer falar, mas não tem voz,
sobrevive,
camufla,
se engana.
Consciência liberta, o corpo é o alerta!
Minha estrutura física é meu mapa, apenas eu sei o caminho que me levará ao verdadeiro significado de estar viva.

Ana Virgínia

24 de fev de 2012

Modelando a ansiedade


- Retração na gengiva? Não era gengivite a razão para tanta sensibilidade?
- Sua gengiva não sangra, não está inflamada. A sensibilidade é em função da retração. Vou te pedir uns exames para descobrirmos o que pode ter provocado e então iniciarmos o tratamento para evitar a evolução do quadro patológico.
Dentro da minha cabeça uma voz gritava: “PATOLÓGICO?”

Assim me explicava pacientemente meu dentista especialista em ATM enquanto eu, imediatamente, me transportava para o futuro, observando meu sorriso em uma fotografia. Sorriso grande, sem gengiva e com raízes dentárias à mostra. É óbvio que não me agradei do quadro.

- No que consiste o tratamento?
- Depende do estudo das suas mandíbulas e da tomografia. Mas no seu caso o que posso adiantar é que você terá que usar ou um aparelho para dormir ou um aparelho fixo.
Pensei: Que ótimo! Todos os meus sonhos infantis estão se realizando! Ano passado quebrei o dedo do pé e tive a opção de usar gesso, agora vou colocar aparelho.
- Procure fazer os exames nessa clínica. Eles entregarão o resultado aqui mesmo e quando eu os receber entro em contato com você.

Minha coragem em prosseguir com o tratamento era tão grande que primeiro esperei chegar de viagem para marcar. Quando marquei, o fiz na clínica errada, mas no final das contas não tive como fugir. Fui.

Acordei bem cedo, arrumei as crianças para a escola, tomei meu café, mas achei melhor não comer muito, afinal eu não sabia o que iam colocar na minha boca. Saí antes das 8 horas da matina, para conseguir ser uma das primeiras, já que o atendimento era por ordem de chegada. Chegando às 7h55, havia uma mulher na minha frente. Pensei: outra desesperada para se ver livre! Deixa disso Ana! Vai ver ela tem outros compromissos a cumprir. Nem todo mundo é “frouxa” que nem você!

Passadas todas as etapas de entrega de guia, pagamento, foto para identificação (acho que isso deveria ser proibido – ficamos estranhamente irreconhecíveis nessas fotos), assinatura...  sou chamada a adentrar uma micro sala, com uma bancada e pia e uma poltrona de dentista.


Uma técnica nada simpática: após me dar bom dia, vira-se de costas e começa a esquentar uma placa de não sei que material.

Na minha cabeça, as curiosidades infantis: Para quê isso? Será que vai queimar minha boca? Controle-se Ana! Qualquer coisa você levanta a mão!


À minha frente um quadro que não dava para entender nada, à minha esquerda uma parede e à minha direita um espelho. Melhor olhar para ele, a imagem é bem melhor assim... huuuuuuuuum... estou precisando retocar minhas raízes com urgência. Assim que sair daqui ligar para o Júnior...

- Abra a boca e só morda a placa quando eu der o comando.
Só me restava balançar a cabeça afirmativamente, já que à medida que ela falava já ia executando o ritual.
- Morda! Isso! Abra a boca!
E eu comigo: senta, deita, rola, morto!
- Abra a boca novamente. Vamos repetir.
Até que estava divertido. Se eu soubesse que era assim tão simples não tinha esperado tanto tempo para fazer o exame.
Ela guardou os dois moldes em um saco plástico e tornou a se virar de costas. Dessa vez ela demorou mais e eu até que achei bom, assim eu poderia continuar meu monólogo com o espelho.

- Abra a boca novamente e baixe a cabeça.
Feito.
De repente, a técnica abre um quilômetro da minha boca e enfia um não sei o quê com uma “ruma” de pasta que de imediato embrulhou meu estômago me remetendo à imagem do Gato de Botas quando coloca para fora uma bola de pelos no desenho do Shrek. Ainda bem que eu havia comido pouco e consegui segurar o conteúdo estomacal...
- Feche a boca! Não tente engolir a saliva, não movimente a língua.
Nisso uma de suas mãos segurava o molde e a outra segurava minha cabeça, empurrando-a para baixo.
- Isso levará alguns segundos – mas juro que demorou uma eternidade – pronto, vou tirar, não se mexa!
O gosto era horrível, além da sensação de que todos os meus dentes estavam indo embora junto com aquela massa corrida.
- Agora nós vamos fazer o molde da arcada superior. E de novo a sessão tortura, mais parecia uma luta de vale tudo onde meu cabelo foi o maior prejudicado, pois já estava cheirando a axila. “Putzgrila”, lavei ontem!

Mas já estava até gostando do procedimento. Encontrei um jeito fácil de passar pelo processo. Bastava inspirar pelo nariz e soltar o ar pela boca e todo o tormento se esvaía. Consegui até repetir o molde da arcada superior que a adorável técnica conseguiu errar.
- Vou ter que repetir esse. Você não baixou a cabeça o suficiente!
Pensei de novo: Ela quase quebra meu pescoço, deixa o maior “futum” no meu cabelo e a culpa é minha? Relaxa, Ana! Você não está aqui a passeio, mas tente sublimar. Pense no mar e respire a brisa litorânea!
Depois de três vezes comendo aquela massinha, finalmente concluímos o procedimento, ao que ela me diz:
- Pode levantar e lavar a boca!

Quando me olhei no espelho novamente, parecia que eu havia comido um monte de broas brancas nordestinas, aquelas, feitas com polvilho. Era farelo até a sobrancelha e não podia ser diferente, tamanho foi o embate de corpos, onde quem ficara em vantagem era obviamente quem estava de pé, babando sobre minha cabeça uma saliva dominadora de quem finalmente subjuga a  presa (a presa era eu). Só me restava me resignar e aceitar que todos vivem dias de caça ou de caçador. Lembrei-me do paradigma dominador do ser humano, do superior e do inferior... um dia falo sobre isso.

- Não foi fácil? O segredo é inspirar pelo nariz e expirar pela boca. Além de ajudar a não vomitar, auxilia a massa a secar mais rápido. Vamos para a tomografia.
- Obrigada por avisar! Vou me lembrar disso na próxima vez. Respondi feliz pela constatação de tamanha autonomia.

No setor da tomografia, outra técnica, mais “simpática” ainda me explica os procedimentos. Essa etapa foi mais fácil, não fosse ter que repetir o exame três vezes e em alguns momentos me sentir como Doctor Lecter com sua focinheira no filme O Silêncio dos Inocentes. Na recepção, enquanto eu esperava o aval dela para ir embora, o filme O Circo de Charlie Chaplin me distraía; ele, vestido de mágico, teria que subir em uma corda bamba. Uma bela bailarina preocupada com sua segurança lhe indaga:
“- Você vai morrer?”
  Ao que ele responde cheio de “marra”:
“- Não. Minha vida é encantada!”

Prontamente fiz a conexão. Eu também sobrevivi à massa corrida em minha boca, tentando me invadir goela abaixo, mas principalmente à falta de sensibilidade das profissionais que me tratavam como qualquer coisa, menos como um ser humano...
E antes que um sentimento de vítima tentasse tomar conta do meu SER, pensei na fotografia sem gengiva e... definitivamente, nada poderia ser pior do que isso naquele momento!
- Dona Ana Virgínia, a senhora está liberada.
- Obrigada e tenha um bom dia!
E abri aquele sorriso, cheio de dentes e gengiva!

Segui para o estacionamento, achando graça da situação e  pensando em redigir essa crônica, sem ao menos imaginar que lá conheceria minha mais nova “amiga”. Não sabe quem é? Aquela da crônica “É para sorrir ou para brigar?”

Acho que o dia promete, mas nada há de estragar minha alegria de viver! Afinal... ela “é encantada”!


Ana Virgínia Almeida Queiroz

Leia também:
Ansiedade, um recurso para o sucesso
Transtorno do Pânico


O Circo
Charlie Chaplin








22 de fev de 2012

Transtorno do Pânico


A síndrome do pânico enquadra-se no conjunto de transtornos de ansiedade e, segundo Ana Beatriz Barbosa Silva, ocupa uma frequência relativamente baixa se comparada aos demais transtornos de ansiedade, especialmente às fobias (medos exagerados). Em contrapartida, as pessoas que sofrem do distúrbio em questão são as que mais procuram auxílio médico.

Isso se deve, em parte, à  gama de desconfortos de ordem física que “invadem” o indivíduo durante o ataque de pânico. O mais comum é a suposição de estarem sofrendo um ataque cardíaco, pois são acometidos por sensações de morte iminente em função de uma aceleração no coração, suor intenso, tontura, falta de ar, dor no peito e a sensação de que algo muito ruim vai acontecer.

O diagnóstico não é simples. A apresentação de um único episódio, que não se repete ao longo dos anos, não caracteriza a instalação do transtorno. Faz-se necessária a freqüência dos episódios, provocadores de comportamentos e sensações que interferem negativamente no dia a dia dos portadores e, ainda assim, é importante afastar a possibilidade das crises serem desencadeadas por outro distúrbio de ansiedade ou por problemas de ordem orgânica.

As crises de pânico, além de favorecerem todo o desconforto de ordem corporal no indivíduo, geram o medo de novos episódios, pois nunca se pode prever quando irão acontecer. Isso limita a liberdade do portador, fazendo com que ele desenvolva uma crescente ansiedade a respeito de locais ou situações propícias às crises que acontecem sem aviso prévio. O sofrimento também é somado às constantes infirmações dos profissionais da área de saúde quando tentam “tranquilizar” o paciente quanto à ausência de problemas ou à simplificação de soluções para o conflito – “Você não tem nada! Está ótimo” ou “Passe um final de semana em um SPA e tudo ficará bem”.

Ainda segundo Ana Beatriz Barbosa Silva, as mulheres são mais acometidas que os homens e as razões para isso ainda não são bem compreendidas. Nos fala igualmente sobre uma propensão genética, onde o estresse afetivo possa representar o maior desencadeador desse transtorno. Robert L. Leahy, exemplifica, assinalando históricos de rompimentos familiares, ou ameaça de rompimentos, perda de um dos pais ou de um ambiente estável ou, finalmente, perda de um relacionamento, afastamento de casa ou da comunidade.

Em sua obra Mentes Ansiosas, a renomada médica nos elucida sobre os sintomas e pensamentos mais comuns no portador.

Físicos:

- taquicardia
- suor intenso (principalmente na face ou cabeça)
- tremores ou abalos musculares
- sensação de falta de ar ou sufocamento
- sensação de asfixia ou aperto na garganta
- dor ou desconforto no peito
- náusea ou cólica
- tontura, vertigem ou desmaio
- sensação de estranheza consigo mesmo
- medo de perder o controle ou de enlouquecer
- medo de morrer
- sensação de anestesia ou formigamento
- calafrios ou ondas de calor

Pensamentos:

- vou ter um ataque cardíaco
- vou ficar louco
- vou morrer
- vou ter um derrame
- vou ser tomado como alguém fraco
- vou desmaiar e vão rir de mim
- não posso ficar sozinho, preciso de alguém para me socorrer
- não consigo controlar minha vida e preciso ser capaz de fazer isso
- não posso dirigir, pois posso perder o controle do carro e bater
- não posso praticar esportes, pois posso morrer
- não posso fazer sexo, pois posso enfartar
- se eu não dormir posso enlouquecer ou ter um colapso nervoso
- não posso me emocionar nem chorar, senão perco totalmente o controle das minhas emoções.

Para aquele que sofre do transtorno do pânico receber tal diagnóstico pode representar um alívio, pois até então toda a situação é confusa e não faz sentido. Ao compreender como se processa o medo em seu organismo e as razões que o desencadeiam, começa a encontrar forças para prosseguir. O tratamento é medicamentoso associado à psicoterapia e é fundamental para a melhora do quadro e a retomada de uma vida normal, favorecendo ainda, maior liberdade para aqueles que convivem com o indivíduo, uma vez que também se tornam reféns da síndrome em função da dependência que provoca no portador.

Suporte bibliográfico:
- Psiquiatria básica – organizadores: Mario R. Louzã Neto, Thelma da Motta, Yuan-Pang Wang, Hélio Elkis / 1995;
- Livre de ansiedade – Robert L. Leahy / 2011;
- Mentes ansiosas – Ana Beatriz Barbosa Silva / 2011


Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250

16 de fev de 2012

Matérias e artigos



1. Por que as crianças estão tão infelizes?

"Especialistas em saúde infantil chamam a atenção para uma epidemia silenciosa que afeta a saúde mental das crianças que, ainda pequenas, precisam lidar com as pressões da sociedade moderna."

Veja a matéria completa no link:
http://veja.abril.com.br/noticia/saude/por-que-as-criancas-estao-cada-vez-mais-infelizes





2. Criança, a alma do negócio

http://www.youtube.com/watch?v=rNlIgEm_5U8

Trata-se de um documentário de aproximadamente 50 minutos, que busca elucidar sobre os riscos de uma cultura consumista, onde as crianças são as maiores vítimas e garantidoras de um processo social alienante. Muito bom! Recomendo!

Ana Virgínia



3. Preparação Emocional para concursos


Luiza Ricotta esclarece sobre um ingrediente indispensável para o sucesso. A autoestima não só como resultado das conquistas pessoais, mas também como caminho para se chegar até elas.  Ana Virgínia



4. A grande muralha da vagina
"O polêmico artista Jamie McCartney nos apresenta 400 moldes de genitálias femininas dispostas em dez painés que totalizam nove metros de comprimento. O trabalho não é apenas uma curiosidade provocadora e controversa, mas um chamado para importantes questões socioculturais envolvendo o corpo feminino."

Veja a matéria completa no link:


5. Dislexia pode ser descoberta antes da alfabetização



6. O QUE ENSINAR SEUS FILHOS SOBRE CRIANÇAS ESPECIAIS?


Esse artigo é fantástico! Várias mães com filhos portadores de necessidades especiais, oferem dicas simples sobre como lidar com tais crianças no cotidiano, uma vez que muitas pessoas se sentem contrangidas diante delas. Ana Virgínia




7. Trickster: o iluminado trapaceiro das trevas


Renato Kress explica sobre o mito do trapaceiro e a função que o mesmo possui, no direcionamento rumo ao encontro de nós mesmos. Muito bom e profundo! Ana Virgínia




14 de fev de 2012

É para sorrir ou para brigar?


Saindo do Conjunto Nacional após a realização de um exame...

Muito tranquila, elaborando mentalmente um novo trabalho sobre Síndrome do Pânico, pego meu cartão do estacionamento, separo R$10,00 e sigo para o caixa. FECHADO! Lembrei que no extremo oposto ao estacionamento coberto havia outro caixa, peguei o carro e segui até lá. FECHADO!
Percebendo que ainda não eram nem 09:00, imaginei que os caixas em funcionamento estariam no térreo. Segui com o carro para a escada mais próxima e ao lado dela havia um caixa aberto. PERFEITO! Estacionei de ré para facilitar minha saída, entrei na fila, paguei, segui para o meu veículo, liguei o carro e quando estava saindo, uma mulher muito bem apessoada, parou seu carro aonde para pagar o estacionamento? Na frente do meu, na via de circulação. Logo pensei: certamente não percebeu que eu estou aqui, pronta para sair. Abri meu vidro e gentilmente pedi para que chegasse mais para trás.

Para minha surpresa ela reagiu aos berros - só não me chamou de santa -, me ordenando que saisse de ré pela vaga de trás. Não precisou mais que isso para eu perceber que a situação não se tratava de uma conversa entre duas pessoas civilizadas e que eu precisava me manter calma... RESPIREI bem fundo e devagar!

- Minha senhora, se eu sair de ré, vou ter que contornar todo o estacionamento para pegar a mão. Seja razoável, a senhora não pode parar o carro aqui. Me deixe sair e estacione em minha vaga, mas se ficar melhor para a senhora, eu a espero pegar a fila e pagar o estacionamento...mal terminei de falar e ela saiu muito contrariada, olhar fuzilante, quase cantando pneu.

RESPIREI mais fundo ainda. Eu não podia perder meu equilíbrio logo agora passado o pior.

Liguei o som, dei partida para sair, percebi que vinha outro carro. Esperei passar. Segui. Lá na frente, próximo à saída, tive que esperar o tal carro manobrar para estacionar. Olhei pelo retrovisor e nova surpresa; "minha amiga" se aproximando do meu carro, morrendo de rir.

- "Sua otária! Não podia me esperar e agora está aí... kkkkkkkkkkkkkk"
 
Pensei: Eu mereço! Respira Ana! Respira Ana! Respiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiraaaaaaaaaaaaaaaaaahhh!
Lembrei do filme Dia de fúria. RESPIREI para acalmar minha células nervosas que nessa altura do campeonato estavam mais agitadas que nádegas flácidas na Marquês de Sapucaí...

Optei por SORRIR!
Onde eu estava mesmo antes disso tudo acontecer? Ah sim! A crônica...
Tenha um bom dia você também e obrigada pela inspiração!

Os sentimentos estão atrelados às nossas ações e reações, norteando a forma como iremos manifestá-los.
Em casos como o relatado, além de tornar os sentimentos conscientes, é valioso lembrar que o conflito que vem do outro, não lhe pertence.
Não convém se "misturar" com os conteúdos emocionais alheios e se isso for inevitável, a avaliação sobre o que promoveu o "encaixe" é fundamental para evitar futuros embates e a instalação de atos violentos.


Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250

Filme: Dia de fúria




12 de fev de 2012

Impulso – liberte-o ou escravize-se

Há alguns dias ouvi uma mãe relatar com orgulho como o filho de dois anos de idade havia exteriorizado, de forma simbólica, sua vontade de “eliminar” a irmã recém-nascida, afogando uma boneca na banheira, repetidas vezes, va-ga-ro-sa-men-te... Paradoxal?! Definitivamente, não.


Impulsos negativos ou positivos influenciam nossas atitudes muito mais do que podemos imaginar e desde muito cedo aprendemos a reforçar os bons sentimentos e negar os maus que podem desencadear tais impulsos. Dentro do processo normal de desenvolvimento infantil, a criança vai percebendo que se não frear sentimentos e comportamentos menos nobres corre o risco de não ser aceita e pode interpretar a não aceitação como ausência de amor.

De tanto ouvir: “Raiva não é legal!” ,” Você tem que amar seu irmão!”, “Se você não for bonzinho, papai e mamãe ficarão muito tristes com você!”, “Homem não chora!”etc, a criança passa a reprimir tais sentimentos, criando normas de boa conduta na tentativa de formar uma imagem baseada em sentimentos aceitáveis (ao que chamamos de ego idealizado), “garantindo”, dessa forma, o amor das pessoas. Quanto maior o medo da rejeição, maior a norma, maior o ego idealizado, mais impulsos censurados e enjaulados no inconsciente. Assim se origina a culpa. Não sabemos de onde ela vem, gera um incômodo grande e não conseguimos nos perdoar, pois não sabemos o erro cometido. Diferentemente do arrependimento, cujo  motivo é consciente. Ele surge a partir do conflito entre impulso e escolha (ter ou não prazer).

Abstraindo os exemplos gastronômicos de Paulo Gaudencio, tomemos a experiência do cigarro. Uma pessoa está tentando se livrar do fumo, mas está com muita vontade de fumar; o conflito já está instaurado. Se ela fuma, sente um prazer momentâneo e um arrependimento duradouro, mas se não fuma, não cede ao impulso, sente um arrependimento rápido e uma grande compensação. Ou seja, se fuma tem prazer e arrependimento, se não fuma, arrependimento e prazer. Do cigarro ao consumo de doces quando se está em dieta e ao flerte com a melhor amiga da namorada é o mesmo caminho. Nada evitará esse dilema, pois faz parte da dinâmica da vida. Mas, ao mesmo tempo, o que é consciente é mais fácil de lidar: trata-se de avaliar a compensação; pura matemática!

A parte mais difícil começa aqui. Lembremos do caso do menininho que afogou a boneca. Caso sua mãe, percebendo que no íntimo da criança o desejo verdadeiro era o de “exterminar” a irmãzinha – sim! afinal, ela veio dividir a atenção dos pais, fazendo com que o garoto sinta raiva, ciúme e medo –,  o corrigisse inadequadamente, ele reprimiria seus sentimentos, guardando-os em um lugar escuro e bem escondido do seu inconsciente. Suponhamos que, anos mais tarde, a irmã descobre ser vítima de uma doença grave. Provavelmente, o garoto sentirá uma culpa enorme, sem causa consciente, mas perfeitamente explicável, pois, finalmente “conseguiu atingir” a irmã. Se fosse um conflito consciente, ele não teria do que se arrepender.


Nesse caso, a mãe tem motivos de sobra para se orgulhar. Viu seu primogênito administrando seus impulsos destrutivos e não o reprimiu, continuou atenta aos sinais do filho, acompanhando-o dentro do seu processo de adaptação ao novo membro da família. A consequência desse ato é uma criança vivendo seu impulso de forma sadia, sem a necessidade de parecer bonzinho para ser aceito. É natural sentir raiva, ciúme e medo diante de tal situação, mas normalmente o que aprendemos é que não é possível amar e sentir raiva de uma pessoa ao mesmo tempo. O que não é possível e aceitável, na verdade, é afogar a irmã. Sentir qualquer um desses impulsos é perfeitamente viável.

Além do ego idealizado e dos impulsos, ainda possuímos, como instância psíquica, o superego, que é o conjunto do ego idealizado e da censura dos impulsos que não correspondem a ele. É um conjunto de valores, um código de ética e que normalmente vem contrapor-se aos impulsos, cuja existência é necessária. Sem ele, o ser humano se torna um animal, sem limites, capaz de cometer as piores atrocidades (até afogar a irmã). Na infância, nossos pais desempenham esse papel nos auxiliando na criação das normas.

Ainda segundo Gaudencio, no processo terapêutico, o superego é revisto, flexibilizado. A isso podemos acrescer que os impulsos reprimidos são reconhecidos como parte integrante do indivíduo e o ego abre espaço para os sentimentos renegados, agradando ou não as outras pessoas. Novo sentido é dado ao impulso, reestruturando uma verdade estabelecida anteriormente e que parecia ser a única. Impulsos bons ou maus fazem parte do ser humano. Reprimir os impulsos negativos é como não liberar a água de uma represa esporadicamente. Se permitirmos que o excesso de água flua, a represa continuará exercendo sua função, mas sob controle.

Suporte bibliográfico:
Minhas razões, tuas razões – Paulo Gaudencio / 1994.


Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250


Sugestão de filme:
O Cisne Negro




10 de fev de 2012

Mamãe? Somos iguais não é mesmo?

Colocando Sofia para dormir...

Sofia: Mamãe, você está bem?
Eu: Sim, por quê?
Sofia: Sinto uma tristeza em você, pequenininha.
Eu: Estou um pouco cansada.
Sofia: Você me diria se fosse tristeza?
Eu: Você gostaria de saber?
Sofia: Sim. 
Eu: Não ficaria triste ou assustada?

Sofia: Eu continuaria te amando, mesmo sabendo que você é como eu.
Eu: Quando acontecer pode deixar que você saberá. Te amo minha filha...

Filhos percebem nossas dificuldades e se sentem importantes, prestigiados quando nos mostramos humanos. Podem também fantasiar que não estamos bem por causa de algo que fizeram caso não os deixemos tranquilos quanto ao que de fato está acontecendo.

Nem sempre será possivel falar sobre os reais motivos que nos abatem, mas desconfirmar a percepção da criança é o mesmo que dizer que está errada. Ela aprenderá com o tempo, a duvidar de si mesma.

Conversar abertamente com uma criança, reconhecendo seu valor, respeitando sua percepção e maturidade, tranqulizando quanto à existência de soluções para os problemas, favorece o desenvolver de crianças mais seguras, mais autônomas emocionalmente, mais sensíveis e mais focadas para o que verdadeiramente é e se tornará importante em suas vidas.


Ana Virgínia - mãe da Sofia (7 anos)

Para Sofia

Velha Infância - Tribalistas

Pausa para crescer


Diante da inquietação para resolver as coisas nos tornamos impulsivos, desperdiçando palavras, nos perdendo em discussões estéreis.

Por mais difícil que seja, por mais voltas que dê o estômago, por mais noites de sono que se perca, ainda é valioso o crescimento resultante do silenciar, do elaborar as próprias emoções antes de agir... mesmo que isso leve meses... o foco tem que estar lá, o objetivo tem que ser claro!

Ficar bem consigo mesmo, haja o que houver...






Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250







9 de fev de 2012

O presente é um presente!

Colocando o Ian para dormir, me transportei para um futuro nem tão distante assim. O imaginei fora daquela mini cama, desprendido de seus companheiros Dona Camisola Azul e Senhor Coelho Mimi. Só mais algum tempo, minha presença já não será mais necessária na hora de dormir. E aquele pacotinho, gostoso de apertar, cheirar e beijar estará se transformando,
paulatinamente, em um homem. Tudo isso passando pela minha cabeça na velocidade da luz...

- Filho?
- Hum!
- Não cresce, fica pequenininho pra sempre.
- Não posso! Tenho que "clescer" - ficou de pé na cama e esticou os braços para o alto...
- Deita aqui. Deixa eu te agarrar um pouquinho. Mais alguns anos e você vai estar barbado, cheio de pêlos no corpo e nem vai deixar eu te apertar. Vai virar um homem grande, estudar, trabalhar, namorar e deixará de ser meu pequenino.
- Mãe, eu não vou ficar cabeludo tá! Mas ainda vou "namolar" a Soso. Nesse dia eu não vou ter mais mãe. Vou ter muitas irmãs...
- kkkkkkkkkkkkkkkk. Como assim? Eu vou morrer? Muitas irmãs ou muitas namoradas?
- Não. Quando a gente "clesce" não "plecisa" de mãe. Eu vou limpar meu bumbum so-zi-nho...
- Sim. Nem eu vou querer limpar seu bumbum cabeludo. Mas continuarei sendo sua mãe, conversando com você e te dando muito amor e carinho.
- Não "plecisa", minha "namolada" Sofia vai fazer tudo isso e você vai poder descansar. E eu não vou ter cabelo na "baliga", nem na perna, nem no "suvaco" não. Só vou ter aqui oh! Na "soblancelha".
- Tá bom Ian, tá bom! Deixa eu te cheirar bem muito agora, antes que seu corpo acompanhe a velocidade da sua cabeça.

AGARREI MUUUUUUUUUUUUUUUUUUUITO! Quase que não deixo o menino dormir, tamanha era minha necessidade de eternizar aquele momento.

Te amo filho!
Que seu anjo da guarde te acompanhe sempre...


Ana Virgínia - mãe do Ian


"Casa de ferreiro, espeto de pau?"

Dia de ontem, faltando quarenta minutos para me deslocar com o Ian (3 anos) para uma consulta, quando ele me aborda no meio do corredor, olhos arregalados e agitado, quase que girando em torno do próprio eixo (mas não é cachorro tá?)...

Ian: Mãe, "ligelo! Pleciso" fazer côcô!
Eu: Vamos lá... baixe as calças que eu te sento no vaso...

E como é habitual, segue me orientando quanto aos passos de seu ritual...

Ian: Por favor, pega os "dibis" (gibis) "pala" mim. "Quelo tlês"... e a escada também (ele organiza os gibis na escadinha de dois degraus... muito sistemático!)... "Agola" pode sair. Quando eu acabar eu te chamo...

Passados vinte minutos, hora correndo contra mim que precisava levá-lo à consulta, pergunto:

Eu: Pronto filho?
Ian: Não (com um sorriso no canto da boca).

Depois de algumas vezes perguntando e ele sempre respondendo que não, fiz o que faz a maioria das mães (mesmo as Psicólogas) com horário a cumprir faria...

Eu: Tá bom filho! Já deu né? (Metendo a mão na descarga, com ele ainda sentado no vaso sanitário! E PARA QUÊ QUE EU FUI FAZER ISSO, MEU DEUS?!).
Ian (chorando horrores): Mãe! Nãããããoooooooooooooo! Você viu o quê você fez?
Eu (sacando a mancada e disfarçando para ver se colava): Dei descarga, precisamos sair e seu bumbum já está vermelho de tanto tempo que você está aí!
Ian (chorando de raiva): Você "desligou" o meu côcô! Ele "ela glandão" e eu nem vi! Não dei tchau "pala" ele! Não sou mais seu amigo!
Eu: Desculpe filho! Depois você faz outro e a gente conversa com ele...
Ian: "Agola" já "ela"!
E lá fomos, os dois dentro do carro... eu ouvindo suas lamurias por conta do tesouro perdido! Pelo menos ele expressou sua raiva e indignação por tamanha invasão materna... espero que tenha sido suficiente!

A Psicanálise explica:

"No segundo e terceiro anos de vida, dá-se a maturação do controle muscular na criança, isto é, dá-se a organização psicomotora de base. É nesse período em que se inicia o andar, o falar e em que se estabelece o controle dos esfíncteres... Dentre os produtos que a criança elabora, as fezes assumem um lugar central na fantasia infantil. São objetos que vêm de dentro do próprio corpo, que são, de certa forma, partes da própria criança... geram prazer ao serem produzidos." Clara Regina Rappaport e outros. 

E "ELA GLANDÃO"!


Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250 - E... mãe do Ian (3 anos)



Ovelha negra, patinho feio... tanto faz!

"... agora é hora de você assumir e sumir..." Rita Lee



Quantos já não se questionaram sobre se o "papel" que representavam em sua família não era o de "ovelha negra" ou "patinho feio"? Quando um único membro faz o "jogo do contra", por pensar diferente, por perceber o que o sistema familiar não enxerga ou não quer enxergar, se torna uma ameaça e dificilmente tem sua essência compreendida, vive marginalizado, desacreditado e por vezes sozinho, mas... feliz dele que pode SER!
Ser "aceito" pode custar caro e o retorno não é certo! Como viver bem consigo mesmo e com as pessoas apesar disso?


Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250



8 de fev de 2012

Abuso sexual intrafamiliar

A percepção confusa sobre o afeto:

“Eu nunca entendi os sentimentos da minha mãe. Ora parece que me ama e me quer acima de tudo, demonstra ciúmes e posse, ora me afasta, me isola, maldiz como se sua inimiga eu fosse... fico confusa. Não sei se luto pelo seu amor ou se desisto... a solidão é difícil demais, então fico e aceito esse jogo que dilacera ainda mais minha alma...”.

 A percepção confusa no que tange às afeições é uma consequência comum em mulheres adultas vítimas de abuso sexual perpetrado por pais biológicos ou padrastos, as quais, segundo as estatísticas, são os que mais cometem o crime de abuso sexual intrafamiliar, seguidos de tios, irmãos, avós, entre outros adultos conhecidos da vítima. A mulher que na infância sofreu esse tipo de agressão do pai ou do padrasto, além de ter que conviver com tal dor, precisa lidar com os sentimentos ambivalentes da mãe que, por vezes a enxerga como a filha amada e, outras, como a mulher que veio lhe roubar o marido.


Etapas do abuso: início, revelação e retratação


Iniciado na infância ou na adolescência, o abuso sexual pode durar anos sem ser descoberto, uma vez que sua prática não se restringe aos contatos sexuais, podendo o voyeurismo e o exibicionismo também ser entendidos como modalidades de abuso, evitando, dessa forma, registros corporais na vítima. Tomemos como exemplo pais que não evitam que a criança ou o adolescente presenciem, de algum modo os momentos em que mantêm relações sexuais, criando situações em que o filho vê ou ouve coisas que não quer, não pode entender, ou que o envergonhe.

Quando a situação abusiva é revelada pela própria vítima, normalmente acontece em época tardia, de maneira conflitada e pouco convincente, o que favorece que outras pessoas creditem ao relato uma fantasia criada pela vítima, quando na verdade o julgamento em questão pode representar uma forma de negar a responsabilidade pela negligência sobre a criança ou o adolescente e a culpa gerada em razão disso.

Assim como a rejeição quanto ao ocorrido reforça a ilusão de uma sacralidade familiar, também favorece a manutenção da disfunção no grupo em questão, pois, sendo desmentida, contraditada em seu relato, a vítima normalmente “volta atrás” na denúncia e submete-se a uma nova situação de abuso, de caráter psicológico mais evidenciado, sendo levado a assumir de forma integral a culpa pelo ocorrido. Nesse momento, o abusador pode ficar "isento" de sua responsabilidade em relação ao ato e se mantém no convívio familiar como se nada houvesse acontecido, provocando, inclusive, uma inversão de papéis – a vítima se torna algoz e o algoz, vítima.

Algumas consequências:

Não raro, pessoas que foram aliciadas na infância podem tornar-se criminosos da mesma natureza na vida adulta. Comumente, por intermédio do abuso, homens buscam se afirmar no que se refere a sua sexualidade. Em mulheres, o mais comum é desenvolverem dificuldades para o estabelecimento de limites nas relações, repetindo um padrão de vitimização em situações diversas, com chefes, amigos, parentes, filhos, maridos e até subordinados. Podem ainda cometer abusos de outra natureza, como o físico, o psicológico e a negligência, sendo mais rara a reprodução do abuso sexual. A ansiedade patológica, especialmente o transtorno de ansiedade pós-traumático, a depressão e o suicído como evolução de ambas,também são comuns nos casos de abuso sexual onde as vítimas podem ser tanto homens como mulheres.

Tais resultados são favorecidos pela repressão dos sentimentos de desamparo, aprisionamento, entre outros desencadeados em experiência dessa natureza, uma vez que a criança ou o adolescentes é forçado a manter o segredo sobre o que acontece, pois, além de ameaçado pelo abusador, corre o risco de perder o amor de outras pessoas, especialmente o da mãe e não obter a credibilidade pelo relato.


Convivendo com a dor:

Mas, ao contrário do que a grande maioria pensa, os danos causados pelo abuso sexual, assim como os de outras experiências negativas na infância e na adolescência, podem ser tratados. Indivíduos que buscam a psicoterapia possuem grandes possibilidades de se tornar pessoas melhores e de evitar a reprodução dessa psicopatologia em relação a seus descendentes. Afinal, lembrando Jean Paul Sartre, o ilustre filósofo existencialista francês diz: “O importante não é aquilo que fizeram de você, mas o que você  faz  do que os outros fizeram de você.”

* Disque 100 para denunciar! É gratuito e o número é o mesmo para qualquer lugar do Brasil. Faça sua parte! NÃO SILENCIE, NÃO SEJA CUMPLICE DESSE CRIME!


Suporte bibliográfico:
• Abuso sexual em família: a violência do incesto à luz da Psicanálise – Carla Júlia Segre Faiman;
• Crianças vítimas de abuso sexual – Marceline Gabel (org);
• Abuso sexual contra crianças e adolescentes – Luísa Fernanda Habigzang, Renato Maiato Caminha;
• Sobrevivência emocional – Rosa Cukier.

Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250

Sugestão de filme: Preciosa


7 de fev de 2012

Desapego


“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, 
que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos 
caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. 
É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” 

Fernando Pessoa

Avaliar sobre o que realmente importa "reter" é fundamental no processo contínuo de amadurecimento emocional. Os vícios emocionais precisam ser revistos, trabalhados e libertados para que então o "salto" aconteça. 

Pensemos sobre isso!

Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250

A dor não assume gênero

Há alguns dias com meu marido em um discreto café, situado em agradável ambiente retrô...

Só no momento de ir embora pude fazer a conexão com a confusão por mim estabelecida ao tentar advinhar se o toalete no qual eu procurava entrar era feminino ou masculino. Na porta, uma obra de arte. Um busto feminino, cabelos curtos escuros e uma axilia por fazer há sema..., digo, meses... parei alguns segundos tentando não me concentrar tanto na necessidade que ali me conduzira, mas na possibilidade ou não de adentrar no lugar errado. Entrei, estava correto! Não havia mictório!

De volta à mesa, ao relatar o ocorrido, eu e meu companheiro dávamos boas risadas e prosseguíamos em descontraído diálogo mesmo saboreando nossos pedidos que chegaram em seguida.

Em um determinado momento - e eu não sei como isso acontece, mas penso que é normal -, cessamos um pouco a conversa e nos isolamos em nossos espaços psíquicos e eu, absorta em meus pensamentos sobre o novo trabalho, não percebi o que ocorria na mesa logo atrás de mim. Meu esposo, que estava de frente, me chamou a atenção para o casal entre 35 - 40 anos que discutia a relação há mais ou menos 4 minutos. De repente, ao contrário do que costuma acontecer, o homem desandou a falar, a mulher a se defender... era nítida a dor, o ressentimento, a confusão nas palavras, o clima tenso. Acusações de parte a parte, em uma discussão que provavelmente levaria ao término da relação ou que se tornaria estéril e recorrente...

Assim pensa e sente a maioria dos casais, apesar de haver uma terceira opção: a busca do equilíbrio na relação.

Eu e meu marido nos olhávamos condoídos, mas reflexivos...

Meu marido diz: "É impressionante o paradoxo do elemento tempo! Ao mesmo passo que tem o poder de curar as feridas, tem a capacidade de criá-las quando as coisas não são ditas no momento oportuno, e permitir que se alastrem enquanto perdura o silêncio no seu decurso."

Eu: Quando superada essa etapa, a relação fica ainda mais fortalecida e é muito mais graticante conviver com o outro e conosco mesmos...
... Lembrei da obra na porta do banheiro... Nessas horas homens e mulheres se fundem num complexo emaranhado de conflitos internos, onde a dor não assume gênero, mas aparenta proporções ameaçadoras, que frustram o melhor aproveitamento da oportunidade preciosa de enfrentar-se o desafio de nela colher expressivos resultados de valor intangível.

Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250

6 de fev de 2012

As relações não curam todas as carências

“Nós escrevemos scripts para outras pessoas encenarem, mas esquecemos de lhes comunicar isso”. Assim relatava um velho conhecido, referindo-se à descoberta de um dos pontos geradores de grandes conflitos nas relações.

Baseadas em suas próprias experiências, as pessoas ao se envolverem, comumente criam expectativas quanto à outra pessoa. As necessidades de um adulto aproximam-se daquelas originadas na infância, uma vez que parte dos desejos infantis não são totalmente saciados nessa etapa do desenvolvimento. Carinho, amor, reconhecimento, entre outros, fazem parte de um conjunto de demonstrações de afeto que se espera de quem partilha a convivência, mas isso não quer dizer que as mesmas deverão ocorrer exatamente da maneira como se deseja.

Necessidades não atendidas podem gerar inúmeros tormentos dentro de um relacionamento, trazendo à tona mágoas antigas nem sempre iniciadas na própria relação, mas que se confundem com o presente. Como resultado, um cenário de cobranças e acusações acerca de quem se doa mais, de quem constrange mais, de quem é mais egoísta, de quem nunca reconhece o que o outro faz e assim sucessivamente. 

Nem sempre esses conflitos ocorrem explicitamente, em forma de discussão. Não raro, são velados, provocando sensações de desconforto , sem que as partes consigam identificar a causa, gerando um distanciamento entre as pessoas. Em uma família, as carências e os desejos de um indivíduo sempre interferem nas atitudes dos outros, restringindo assim, a liberdade, criando uma espécie de interface intangível, a afetar e condicionar silenciosamente, as ações e, sobretudo, as reações de cada um.

Uma vez instalada a sensação de aprisionamento, dificilmente consegue-se perceber quando o outro não está cobrando, quando pode estar apenas tentando restabelecer contato. Quando a má vontade em reconhecer as qualidades do outro toma conta da relação, torna o diálogo inviável e, por uma questão de tempo, o rompimento acontece, quando não um vínculo desgastado e levado adiante, sem entusiasmo.

Mas isso não é o fim do mundo. Reconhecer o outro como unidade – no sentido de um ser inteiro, integral – diferente é o primeiro passo. Uma pessoa não está dentro da outra, nada pode adivinhar sobre o não verbalizado. Quando a necessidade é dita claramente, o outro pode até querer e tentar satisfazê-la e isso será surpreendente, mas precisa ser dito.

E se a outra pessoa não quiser supri-la? Paciência! O outro não existe para servir. Mas pode mostrar afeto de outra maneira e é importante exercitar a flexibilidade para perceber e aceitar a forma como consegue demonstrar sua afeição.

Outro ponto importante é compreender que homens e mulheres possuem funcionamentos diferenciados e que suas reações muitas vezes estão atreladas a padrões sexuais e culturais e não necessariamente a questões pessoais.



E, finalmente, lembrar que o diálogo não é um espaço para a expressão agressiva das frustrações. Trata-se de um mecanismo valioso na busca do fortalecimento do vínculo entre as pessoas e como tal deve ser utilizado como forma de construir relacionamentos mais autênticos e libertadores.

Em qualquer relação, seja ela marido e mulher, mãe e filha, entre amigas, as expectativas podem causar grandes danos quando nos deparamos com o ser humano que habita em cada um, podendo provocar o fim naquilo que de mais autêntico poderia existir entre as pessoas - o afeto!


Ana Virgínia de Almeida Queiroz
Psicóloga / CRP: 01-7250


A música abaixo retrata essa realidade.
Condição humana - Línux



 

3 de fev de 2012

Dizer não...

Por Daniella Araújo

Era um grupo de amigas conversando no bar.

Uma estava noiva, a outra namorando, uma estava ao sabor do vento (como ela gostava de nominar seu estado solteiro) e a última era casada.

Uma delas lembrando que a casada completaria 15 anos de relacionamento com o marido perguntou: Vc é feliz? Vc acha que valeu à pena?


“Sim, sou feliz. E sim, valeu e vale muito à pena.” Respondeu a amiga casada.

De pronto a outra devolveu: “Como você consegue? Qual a fórmula?”
A outra parou e ficou um tempo pensando... Então ela respondeu:
“Aprender a dizer não!”
As outras três não entenderam e se entreolharam.
Nisso ela continuou:

“Deixem-me explicar uma coisa:
Desde quando nós começamos a nos relacionar eu sempre dizia sim. Primeiro eu dizia pq estava apaixonada. Depois eu dizia por insegurança. Queria garantir que ele estivesse comigo sempre e achava que meus “sims” garantiriam isso. Sim. Eu era muito insegura, muito nova e extremamente apaixonada a fim de me cegar quanto ao que eu queria. Então eu fui sempre dizendo sim. Eu não queria comprá-lo, mas eu queria que ele percebe-se que eu era uma companheira para ele.

Obviamente uma relação é feita de alegrias, tristezas, ganhos e perdas. E houve sim uma época que nós tivemos sérios problemas, principalmente no que dizia respeito à dinheiro. E chegou um dia que eu tive que dizer não.

Já havia tempo que eu dizia sim mesmo com o coração apertado ou tendo dúvidas se as decisões que estávamos tomando eram as mais acertadas. Às vezes eram medos infundados... outras vezes eram análises racionais... Mas eu sempre dizia sim.

Nesse dia eu disse não. Aquele foi um dia definitivamente ruim.

Ele ao ouvir minha posição contrária a dele estremeceu, mudou o tom de voz que de doce passou a áspero. Vi um veio de raiva saltar no pescoço e os olhos cheios de ira eram inconfundíveis.

Aquele foi um dia triste, chovia dentro de mim, tempestade emocional.. relâmpagos, trovões.... chorei. Mas eu me mantive firme naquela decisão. Eu tinha certeza que ao dizer não estava salvando muito da nossa relação, embora naquele momento parecia mais que estávamos criando um abismo sem fim.

Aprendi naquele dia que dizer não significava muito mais do que dizer sim. Significava dizer ao outro que o ama, que o respeita, mas que por isso mesmo pode e deve lhe dizer não quando o pedido parece ser algo ruim. Nós não temos bolas de cristais para saber o que será da nossa vida... quem encontraremos.. ou se um negócio dará certo ou não... Mas temos que ser coerentes com o que pensamos e vislumbramos.

Dizer não significa amar o outro com ainda mais força! Significa aceitar que você pode e deve pensar diferente. Se vc ama o outro vai dizer não em uma ou outra situação, pq relacionamento é ceder... mas ceder dos dois lados... Não só eu posso ceder, o outro também tem que ceder.

Dizer não significa dar ao outro um motivo para te olhar e enxergar verdadeiramente como você é: um ser humano cheio de nuances e que tem vontades e desejos também. Se vc sempre diz sim o outro não te enxerga, logo não pode saber quais são seus anseios e obviamente não vai satisfazer suas vontades.

Naquela noite quando voltei para casa ele já estava lá. A cara amarrada. Não havia clima nem mesmo para o jantar. A conversa foi burocrática. Eu, claramente, não sabia o que esperar dele. Pensei até que ele me proporia a separação.. ou coisa parecida (era novamente a insegurança me tomando). Simplesmente ele tomou um copo de leite e disse que ia dormir.

Nos dias seguintes fomos nos paquerando novamente. Era como se ele tivesse descoberto uma nova pessoa. Ele me enxergou. Podia ter dado errado. Ele podia ter me enxergado e pensado que não era bem isso que queria. Mas foi o contrário: ele me viu pela primeira vez como eu realmente era. Percebeu que eu tinha sonhos, desejos, necessidades não reveladas.

Falar não abriu caminho para poder falar outras coisas antes tão escondidas no meu coração. Falar não possibilitou vivermos uma relação verdadeira.

É. Acho que é isso. Esse é o nosso segredo de sucesso. Mas podem haver vários. Para cada casal uma aliança diferente!”


Como se inicia um surto

Eu, Sofia (7 anos) e Ian (3 anos)

Eu: Ian, você nem me contou que a Nandinha é sua coleguinha de escola. Ela está estudando na sua salinha agora não é?
Sofia: Que Nandinha?
Ian pensando...
Eu: Aquela do prédio em que moramos até o ano passado.
Sofia: A irmã do Felipe?
Ian pensando...

Eu: É.
Sofia: Hummmmmmmmmmmmm! Namorada do Ian!
Ian: Que "nozo"!
Eu: Fala pra ela Ian - "Eu sou criança, não namoro, só brinco..."
Mal fechei minha boca ele emenda:
Ian: "Namolo" sim! Com a Nandinha não! Com a Sofia!
Sofia: Eca! Que nojo!
Ian correndo atrás da Sofia pela casa: Minha "namolaaaaaaaaaaaaada" e continuou: "Hoje à noite, aqui na selva, quem dorme é o Leão... bapumba pumba aê." Vem cá minha "namolada". kkkkkkkkkkkkkk...
Eu: Galerinha, volta para terminar o almoço!
Sofia: Ixi Ian! Vamos rápido senão a mãe vai surtar!
Eu: Que história é essa Sofia? Onde você ouviu essa palavra?
Sofia: Sei não! Acho que foi por aqui mesmo...
Eu: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk


Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250

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