26 de jan de 2012

Tirando a poeira debaixo do tapete


"Você sabe que algo não vai bem, mas não sabe como criar espaço para dizê-lo". Imagine um casal. Eles saem para comemorar seu aniversário de casamento; restaurante luxuoso, boa comida, vinho de safra especial. Relembram como tudo começou, a chegada dos filhos e... ele tenta falar sobre a vida sexual deles. Ela demonstra prontamente sua insatisfação em tocar no assunto; ele insiste, ela se mantém firme em não conversar a respeito; ele recua, o assunto "morre".

A grande maioria das pessoas se queixa sobre a dificuldade que encontra na tentativa de conversar com seus cônjuges ou filhos, especialmente quando percebem que uma crise (ressentimento e mágoa bem instalados) está perto ou já tomou conta da relação. Nesse momento, as sensações de desamor aumentam, crescendo também o distanciamento entre as pessoas. Sendo o diálogo uma solução para os problemas nos relacionamentos, como é possível favorecer seu surgimento e, mais, resultados eficazes a partir dele?

Em um diálogo, duas atitudes são extremamente importantes e igualmente difíceis – falar e ouvir. Aquele que convive comigo e que me conhece melhor do que ninguém, certamente falará sobre coisas que tento esconder de mim mesmo. Tomarei suas palavras como uma acusação e isso irá doer. Logo, a defesa: a recusa em escutar e o ataque. Quando falo, mostro ao outro aquilo que ele não quer ver, ele vai se defender, me agredir e isso também incomodará. Ver a pessoa que amo triste pelo que foi dito também machuca. Na tentativa de fugir da própria dor e de não provocar a dor na pessoa amada, jogo a poeira embaixo do tapete. A longo prazo, isso resulta na destruição do vínculo.

Quando tento, dentro de um processo de autoconhecimento, reconhecer, aceitar e mudar minhas limitações, a fala do outro não será uma surpresa, consequentemente não necessitarei me defender dela. E, ainda dentro desse mesmo processo, perceberei como nos estágios anteriores da vida (infância e adolescência) eram recebidas e sentidas as críticas positivas e negativas destinadas a mim e enviadas por mim – isso seguramente interferirá na maneira como desempenharei os papéis de emissor e receptor em um diálogo.

Para o receptor, o que mais se destaca é a crítica; para o emissor, sua fala nada mais é do que um conjunto de sugestões e julgamentos concentrados no afeto pelo outro. O resultado: dois monólogos. No exercício de autodescobrimento, ambos, revendo sua própria história e o aprendizado oriundo dela, podem falar e ouvir transformando os monólogos em um diálogo. Deborah Tannen (2003) diz: "É difícil separar os sentimentos ambíguos de carinho e crítica, porque a linguagem funciona em dois níveis: a mensagem (o sentido das palavras e das frases faladas) e a metamensagem (o significado não dito – pelo menos não com tantas palavras). Separar esses níveis – e estar ciente de ambos – é crucial para melhorar a comunicação em família."

A maturidade na relação e também no nível individual é atingida quando nos tornamos capazes de compreender que existem duas verdades, não a minha e a errada, mas a minha e a do outro. Ouvir, avaliar os sentimentos, ponderar, escolher as palavras, a intensidade da voz, falar, ouvir e assim sucessivamente... seria a solução ideal para conservar e aumentar o amor que aproximou as pessoas, mas exige a coragem de olhar para si mesmo no processo único e precioso de desvendar sua mais profunda e verdadeira essência.

Suporte bibliográfico:

- Minhas razões, tuas razões – Paulo Gaudencio (1994);
- Só estou dizendo isso porque gosto de você – Deborah Tannen (2003).


Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250

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